A JORNADA DO FUNDADOR
- Edson Gissoni e Rual Rousselet – Sócios Executivos da DMS PARTNERS

- há 6 horas
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Edson Gissoni e Rual Rousselet – Sócios Executivos da DMS PARTNERS
CAPÍTULO I – ENTENDENDO O CONCEITO E AS GRANDES FASES
A Jornada do Fundador é o caminho que todo empresário percorre desde a fase em que
concentra todas as decisões até o momento em que passa a dividir, transferir ou encerrar seu papel na liderança do negócio. Nesse percurso, o tempo e a qualidade da preparação fazem a diferença entre preservar o legado ou ver anos de trabalho se perderem em poucas decisões mal conduzidas.
No Brasil, cerca de 90% das empresas são familiares, mas apenas 30% chegam com sucesso à segunda geração, menos de 15% alcançam a terceira e menos de 5% resistem até a quarta. Estudos mostram que a principal causa dessa alta mortalidade não é o mercado em si, mas a ausência de governança, de planejamento sucessório e de regras claras entre sócios e herdeiros. Pesquisas indicam, ainda, que aproximadamente 72% das empresas familiares brasileiras não possuem um plano de sucessão definido para cargos-chave, o que transforma a transição de liderança em um momento de improviso e conflito, em vez de um processo estruturado. Em outra leitura, isso significa que grande parte dos Fundadores está reagindo à sucessão quando o problema já estourou, e não conduzindo a jornada com controle e antecedência.
A proposta da Jornada do Fundador é justamente inverter essa lógica: sair do improviso e assumir um maior controle sobre o tempo, as etapas e as alternativas de transição. Planejar com antecedência permite ao fundador testar sucessores, definir papéis (família, gestão, conselho), simular cenários de liquidez parcial ou total e desenhar sua própria trajetória, seja como conselheiro, sócio capitalista ou completamente desligado da operação. Quando o Fundador enxerga a jornada como um projeto estratégico, e não como um tema “para depois”, ele reduz riscos de conflitos, aumenta a atratividade da empresa para investidores e protege o patrimônio construído ao longo de décadas.
Mais do que um tema jurídico ou financeiro, a Jornada do Fundador é um movimento de consciência: entender que a saída do fundador é certa, mas a forma como ela acontece pode ser planejada, negociada e organizada. Ao se preparar com o tempo adequado, o empresário deixa de ser refém de urgências (doença, conflitos, pressões de mercado) e passa a conduzir, com clareza, a sucessão, a criação de conselho e as decisões de liquidez, com impacto direto na continuidade da empresa e na tranquilidade da família.
As quatro grandes fases da Jornada do Fundador
Embora cada empresa tenha sua própria história, é possível enxergar a Jornada do Fundador em quatro grandes fases, que ajudam a organizar decisões e prioridades.
1. Fase do “eu resolvo tudo”
É o momento em que o Fundador está à frente de todas as decisões relevantes:
contrata, demite, negocia com clientes e fornecedores, fala com o banco e acompanha
o caixa no detalhe. Essa fase é importante para formar cultura, testar o modelo de
negócio e ganhar velocidade, mas se prolongada demais cria gargalos, sobrecarga
emocional e dependência excessiva da figura do fundador.
2. Fase da profissionalização da gestão
Aqui o Fundador começa a montar um time de liderança, estruturar indicadores,
definir rotinas de gestão e implantar processos básicos de governança (como reuniões
de resultado, orçamento, políticas comerciais e financeiras). É também o momento de
separar o que é papel da família e o que é papel da gestão, abrindo espaço para
executivos de mercado sem perder a identidade da empresa.
3. Fase da governança e dos fóruns de decisão
Com a operação mais madura, surge a necessidade de criar fóruns formais de decisão:
conselho consultivo ou de administração, acordos de sócios, protocolos familiares,
regras de entrada, saída e remuneração de familiares. Nessa etapa, a figura do
Fundador começa a migrar da gestão do dia a dia para o papel de estrategista,
conselheiro ou chairman, com tempo para pensar o futuro do negócio e a própria
sucessão.
4. Fase da sucessão e da liquidez
É quando o tema da saída (parcial ou total) deixa de ser tabu e passa a ser tratado de
forma estruturada. O Fundador pode planejar a entrada de um sucessor familiar, a
continuidade com executivos de mercado, a venda de participação para um investidor
ou mesmo a venda integral da empresa. O ponto central é que essa transição seja
preparada com antecedência, com critérios claros, comunicação transparente e
alinhamento entre sócios e herdeiros.
FAQ – Jornada do Fundador
1. Quando devo começar a planejar minha sucessão?
O ideal é iniciar o planejamento enquanto a empresa ainda está em crescimento e o fundador ativo. Isso permite testar sucessores, estruturar governança e ajustar processos com tempo. Esperar um evento crítico (doença, conflito ou crise) reduz opções e aumenta o risco de decisões precipitadas.
2. Preciso ter um sucessor familiar?
Não necessariamente. A sucessão pode ser feita por executivos de mercado, desde que haja alinhamento estratégico e governança clara. O mais importante é competência e preparo, não vínculo familiar. Muitas empresas falham ao priorizar laços familiares em detrimento de capacidade técnica.
3. O que acontece se eu não planejar a Jornada do Fundador?
A ausência de planejamento tende a gerar conflitos societários, perda de valor e instabilidade operacional. A sucessão ocorre de forma reativa, geralmente em momentos de crise. Isso compromete a continuidade do negócio e pode destruir anos de construção patrimonial.
4. Qual a diferença entre governança e gestão?
Gestão é a execução operacional do dia a dia, enquanto governança define regras, estruturas e decisões estratégicas. A governança organiza o poder, estabelece controles e cria fóruns de decisão, garantindo que a empresa funcione de forma sustentável e independente de indivíduos.
5. Posso continuar na empresa após a sucessão?
Sim, é comum o fundador migrar para papéis como conselheiro, chairman ou sócio-investidor. Isso permite contribuir estrategicamente sem interferir na operação. A transição bem estruturada preserva o legado e mantém o fundador relevante, sem comprometer a autonomia da nova liderança.
Este artigo terá uma sequência com mais um capítulo sobre o mesmo tema onde serão
abordadas as Decisões-Chave envolvidas no processo e a Dimensão Emocional dos
envolvidos na Jornada do Fundador.




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